Breve conto
A Dalton Trevisan
O sinal matinal. A porta se abre. Seis horas da manhã. Sai aquilo com manchas grises na pele. Parecem sardas de lepra incrustada. No umbral outra choldra com cara de asno. Traz um pra mim também! Tá bom, vou trazer, responde a besta rugosa, com cara de papel crepom amassado. Sai aquilo. Com um pouco mais de atenção perce-se bem que usa fralda geriátrica sob a calçola bancarrota. A veiaca também. O cheiro prútrido da merda empastada empestia o corredor. Cheiro de bosta com perfume barato de lavanda e naftalina das mortalhas conservadas no armário. Um festival escatológico de odores e combinações desarmônicas numa estética grotesca. O velho acha que é agente de CIA ou algo assim. A xoroca pensa que tem mediunidade, banca a feiticeira de terreiro. Aquela imagem degradada lembra uma espécie de simbiose de coprofilia. Hematomas, quelóides, valas cutâneas... retrato da degenerescência, uma bitoca ligeira que se trocaram, embrulhou-me o estômago, quase regurgitei. Bichos horrendosos, remeti-me, por força do testemunho visual, à imaginação de uma cópula asquerosa entre nematelmintos - aquela imagem tinha cheiro, exalava um ar insalubre de carniça e latrina revolta. Quase um trauma. Aqueles, quase vermes- quase gente: muita náusea. Violência visual, crime estético. Ele volta com um embrulho. Cheiro de merda nas calçolas - um rastro de cacas no chão do corredor. Ela diz: a mesa já está arrumada, ele ainda no corredor. Ela na porta, com um batom vulgar sobre os lábios murchos cheios de vincos, parece uma lagartixa desidratada. Os borrões de maquiagem de viaduto mal utilizada estendem-se até a testa. As roupas, retalhos de pano-de-chão. Na cabeça, uma bandagem que mais parece um bolo de papel higiênico usado. Eles entram. A coprofagia é iminente.FELLIPE KNOPP
esses cus leprosos de boçal...
Nenhum comentário:
Postar um comentário